Mossoró e os comboieiros de outrora

17/12/2013 16:59

José Romero Araújo Cardoso (*)

 

No início do século XIX, quando Henry Koester esteve na povoação de Santa Luzia do Mossoró, o lugar apresentava marcas em sua espacialização geográfica através de inexpressivos arruados, bem como população rarefeita, sujeita a todas provações. A maioria habitava a zona rural, a qual sofria duplamente com a ausência de perspectivas de melhor qualidade de vida, com ênfase aos problemas ocasionados com a calamidade do abastecimento d`água.

A dinâmica econômica tangenciada com o vertiginoso crescimento da cidade surgiu quando do assoreamento do porto de Aracati, no Estado do Ceará, em meados da segunda metade do século XIX. O escoamento de boa parte da produção sertaneja das unidades territoriais nordestinas vizinhas ao Estado onde se encontra a desembocadura do Rio Jaguaribe era feito através do atracadouro aracatiense, incluindo a produzida no oeste potiguar.

Naturalmente, as atividades antes desenvolvidas no porto de Aracati foram sendo transferidas para Mossoró, implementando dessa forma a importância do município a ponto de, em 1872, conquistar emancipação política. A existência de condições naturais que favoreceram o escoamento da produção atraiu a atenção de diversos comerciantes, com destaque para o suíço Ulrich Graf. A casa importadora e exportadora que mantinha logo se transformou em um dos mais lucrativos empreendimentos. Graf passou a lutar em prol da estrada de ferro, cujo início só se efetivaria no começo da década de dez do passado século. A existência de imensas salinas ao longo da costa, bem como na desembocadura do rio Apodi-Mossoró, também favoreceu bastante ao crescimento do antigo povoado outrora submetido ao município de Assu. Mesmo assim, a via férrea só se interligou com a cidade paraibana de Sousa em avançado ano da década de cinqüenta do século XX. Apelos insistentes de Jerônimo Rosado, Felipe Guerra, entre outros, não ressoaram positivamente nas esferas do poder durante décadas.

A necessidade de se dispor de uma complexa rede ferroviária facilitando o racional escoamento da produção, destacando-se àquela que caracteriza a economia do semi-árido do oeste potiguar, bem como a dos estados vizinhos, sobretudo a porção oeste da Paraíba, exportada através da estrutura existente na época em Mossoró, pode ser apontada como empecilho à dinâmica das exportações, efetivada via Porto Franco. O trem era o mais viável meio de transporte em virtude do crescimento da produção sertaneja. Algodão, sal, gesso, das vossorocas da espadilha, cera de carnaúba, peles e couros, inundavam o dinâmico comércio do município que ficou conhecido como capital do oeste potiguar.

Essa dinâmica foi propiciada pela necessidade européia de se reconstruir, de ressurgir dos escombros a que ficou reduzido, em grande parte, o velho continente de antigas civilizações. A economia nordestina passou por um dos seus mais importantes momentos. Toda produção, depois de exportada, era negociada na Bolsa de Comoditties, a qual, não suportando a pressão, veio a quebrar em 1929. Em diversos lugares que apresentaram importância econômica, viveu-se um momento de euforia nunca antes imaginado.

Para atender a consolidação das exigências externas, suprindo a carência absurda de meios de transporte, principalmente em razão dos ramais ferroviários terem limitação em suas abrangências, começou a haver nas veredas do sertão crescimento exponencial de velhos conhecidos dos difíceis tempos do transporte de mercadorias durante a colônia e império.

Era imensa a depreciação da produção em virtude da aventura empreendida por incontáveis agentes econômicos oriundos dos mais diversos rincões. Eram os comboieiros, almocreves ou tropeiros, condutores de tropas de burro que demandavam a Mossoró, intuindo melhores preços para os seus produtos. Os tropeiros foram responsáveis, não os únicos, mas um dos mais importantes agentes, para a concretização dos negócios realizados em Mossoró. Disponibilizavam a produção sertaneja na praça depois de viverem continuamente as mais inusitadas experiências no meio das caatingas.

Os mais afortunados possuíam tropas com mais de 500 burros. Eram os grandes fazendeiros enriquecidos com o algodão, um dos principais produtos na pauta de exportações nordestina quando do auge econômico que marcou os anos de 1919, 1920 e 1921, não apenas no Brasil, mas praticamente em todo mundo.

Enfrentando os perigos dos caminhos tortuosos e cheios de mistérios do sertão, secas, invernos intensos, a ação alucinante das intempéries e ataques de bandidos, entre outros desafios, os tropeiros, cheios de esperanças, trouxeram muito da prosperidade da terra de Santa Luzia do Mossoró. Em pouquíssimo tempo, transformou-se em um dos mais importante município potiguar. Mantendo as diferenças, caso parecido foi verificado no sul do Ceará, embora este esteja atrelado a fenômenos místicos.

Quando distâncias e barreiras naturais transformaram porções dos estados do Ceará e da Paraíba em territórios econômico-sociais intimamente vinculados a Mossoró, sobretudo as mais limítrofes, os tropeiros com suas cargas e mercadorias tornaram-se indissociáveis elementos da paisagem mossoroense de uma época.

Valorizar e render homenagens às lutas, aos esforços, aos sofrimentos, às alegrias e contribuições dessa gente brava significa enveredar pelas velhas trilhas devassadas pelas alpercatas e pelos cascos dos burros das alimárias que traziam os mais importantes fluxos que alimentaram a orgulhosa economia da terra de Santa Luzia do Mossoró em efusiva fase de sua história.

 

(*) José Romero Araújo Cardoso é professor adjunto do Departamento de Geografia da UERN e assessor da Fundação Vingt-un Rosado/Coleção Mossoroense. romerocardoso@uol.com.br

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