A paisagem sertaneja e o lugar do turismo

28/11/2013 09:05

Giovanni de Farias Seabra

Introdução

A partir do mar, perde-se o olhar nas lonjuras do sertão, as terras infindas do interior. Imerso na distante paisagem sertaneja surge o lugar. Muitas vezes paisagens e lugares mesclam-se num cenário difuso, passando despercebidos aos visitantes menos atentos. Ao percorrer os sertões, muitas vezes nos distanciamos dos lugares, afastando-nos do locus onde reina a sabedoria popular. Penhascos e rochedos são testemunhas dos ambientes de outrora, lugares onde tribos primitivas elaboravam artefatos para caça, destrinchamento e cozimento de espécies animais, há muito tempo extintas. Registros rupestres deixados por comunidades da idade da pedra adornam um sem número de lajedos, grutas e paredões abruptos à beira dos rios sertanejos, os quais, na maior parte do ano secos. Quando cheios d`água, esses mananciais causam explosões de vida nos mais longínquos rincões dos sertões. Os escritos primitivos, em grande parte indecifráveis, despertam a atenção e o imaginário popular. Assim se define o lugar do turismo no sertão nordestino. Nicho cultural onde um punhado de pessoas interage com o ambiente natural, nele eternizando seus registros de passagem. Ao longe, colossais monumentos líticos observam, silenciosos, a evolução da história geológica da vida. Ao resgatar o lugar, com ênfase nas formas do relevo, o presente trabalho retrata experiências vividas pelo autor nos domínios geomorfológicos do sertão, procurando-se vivenciar a engenhosidade cultural e artística presente na alma da base social local.

Sem pretender esgotar nesta curta apresentação todo o potencial contido nas vastidões do Sertão Nordestino, selecionamos algumas áreas como exemplos ilustrativos de planos turísticos de base social local, situadas nos estados da Bahia, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí. Os registros de natureza física, social e cultural aqui apresentados estão intrinsecamente associados à nossa experiência com a análise geográfica da paisagem sertaneja, cujos métodos de pesquisa permitem identificar e caracterizar o lugar na sua mais autêntica representatividade.

O turismo quando planejado segundo o modelo estrutural sistêmico, cuja sustentação se dá através dos elementos naturais, sócioeconômicos e culturais regionais e locais, tem seus custos de implantação e de manutenção sensivelmente reduzidos. A integração desses elementos incentiva a inserção de novos serviços e produtos na economia local, impulsiona a cadeia produtiva e promove a elevação do padrão de vida da comunidade residente.
A Paisagem Sertaneja

Nos idos do descobrimento do Brasil, em carta enviada ao Rei de Portugal, D. João, Pero Vaz de Caminha referia-se aos sertões como as terras infindas, com muitas águas, índios bravios e lindas mulheres seminuas de corpos pintados e sexo exposto. Segundo a tendência atual, os relatos de Caminha sobre o sertão, carregados de mistérios, aventuras e sensualidade, seriam hoje transformados em propaganda turística para divulgação das atrações do interior do Brasil. Assim relatava o escrivão da corte portuguesa:

O sertão nos pareceu, visto do mar, muito grande; porque a estender os olhos, não podíamos ver senão terra e arvoredos, terra que nos pareceu muito extensa (CAMINHA, 2002:118). O sertão, portanto, corresponde às terras continentais, cujo isolamento proporcionou o desenvolvimento de uma cultura própria, baseada numa história rica em acontecimentos, marcada de lutas, bravuras, lendas, ritos e mitos. LEITE (2004), refere-se ao sertão como sendo o outro lugar visto do litoral, um espaço sempre citado pelos cronistas que viajaram pelo interior do Brasil entre os séculos XVI e XVIII. Segundo a autora, a partir da carta de Caminha documenta-se o sentido da palavra sertão como interior, as terras distantes do litoral, ainda não alcançadas pelo colonizador, a hinterland, deixando implícita a oposição geográfica e cultural entre litoral x sertão.
A Região Nordeste é influenciada pela ocorrência de correntes de circulação perturbadas que sopram dos quadrantes sul, norte, leste e oeste, que compreendem quatro sistemas a saber (NIMER, 1977):

"As Correntes Perturbadas de Sul são representadas por invasões das frentes polares, durante o verão e a primavera, provocando chuvas frontais ao longo do litoral e encostas do Planalto Brasileiro, chegando a alcançar o sul da Bahia. No inverno, a frente polar de latitude sul, indo atingir o litoral pernambucano, ultrapassa o paralelo 15o, enquanto que o sertão permanece sob ação da alta tropical com tempo estável."

As Correntes Perturbadas de Norte são representadas pelo deslocamento da Convergência Intertropical (CIT), oriunda da convergência dos alísios dos dois hemisférios. Ao longo desta depressão o ar em ascendência provoca chuvas e trovoadas às vezes muito intensas. Na Região Nordeste ela atua com mais intensidade no verão e outono, quando atinge o cotovelo do rio São Francisco e o Raso da Catarina.

As Correntes Perturbadas de Leste atuam mais freqüentemente no inverno, provocando chuvas principalmente na Zona da Mata Pernambucana e na Zona Cacaueira da Bahia. As precipitações diminuem bruscamente para oeste, raramente ultrapassando as escarpas da Borborema e a Chapada Diamantina.

As Correntes Perturbadas de Oeste atuam na primavera e outono, quando o interior do Brasil é submetido aos ventos trazidos pelas frentes de instabilidade tropicais (IT), provocando chuvas e trovoadas. Essa massa penetra no interior da Bahia, desfazendo-se ao entrar em contato com o oceano. Em consequência à conjugação desses fatores, menos de 50% do território regional apresenta climas super-úmidos, úmidos e semi-úmidos. Por outro lado, o clima semi-árido domina mais de 50% da região, o chamado Polígono das Secas, ocasionando um caráter peculiar à paisagem sertaneja e seus reflexos socioeconômicos e culturais . Essa diversidade climática torna a região livre das chamadas baixas estações, havendo capacidade para manutenção de fluxos turísticos durante todo ano.

Com superfície aproximada de 26.000 Km2, o Planalto da Borborema é o grande destaque na paisagem nordestina. Esta macrounidade do relevo está situada na região oriental do nordeste brasileiro, estendendo-se pelos estados do Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas. AB` SABER (1969) referiu-se a Borborema, como um maciço em abóbada de estrutura irregularmente amarrotada, decorrente de uma intensa atuação tectônica seguida pela reativação dos dobramentos, que foram acompanhados pela formação de fraturas e falhas, além de sucessivos aplainamentos. Os enrugamentos pós-cretácicos acarretaram conseqüências geológicas e geomorfológicas não somente no maciço cristalino do planalto, mas também nas áreas circum-adjacentes de estruturas cristalina e sedimentar.

Devido à sua localização geográfica, associada às condições topográficas e climáticas, o agreste corresponde a uma região da Borborema de clima semi-úmido, de transição fitoflorística e fitofisionômica, situada entre a zona da mata do litoral úmido e a caatinga do sertão semi-árido. Tanto o agreste úmido como o sertão semiárido, são pontuados de ilhas úmidas, denominadas brejos de altitude, formas residuais e isoladas de relevo que surgem nos pediplanos, sobretudo na fachada oriental da Borborema. Processos erosivos intensos provocaram o rebaixamento da superfície estrutural, restando testemunhos elevados, cuja exposição aos ventos de leste originou os oásis sertanejos, onde a água é abundante, os solos ricos e profundos e a vegetação exuberante. Nessas áreas elevadas o espaço rural é fragmentado por inúmeros sítios policultores, voltados para a produção de flores, frutas, hortaliças,cana e fabrico de cachaça e rapadura nos engenhos centenários.

No inverno, a Frente Polar Atlântica, ao debruçar-se sobre os contrafortes do planalto, escala suas vertentes e penetra nas calhas dos rios, reduzindo as temperaturas sertanejas, que nos brejos atingem mínimas absolutas de 13º C. No agreste, a pluviosidade pode ultrapassar 1.400mm, em contraste com o semi-árido, a oeste, com médias em torno de 600mm, e a Zona da Mata, a leste, com precipitações médias de 2.000mm.

Na Bacia do Capibaribe, em Pernambuco, por exemplo, as altitudes da Borborema se reduzem em patamares na direção leste, numa toposequência alinhando os municípios de Poção (1.200m), Brejo da Madre de Deus (800m), Santa Cruz do Capibaribe (500m) e Limoeiro (200m). Esses degraus em forma de pediplanos comprovam que o Planalto da Borborema foi modelado por sucessivos ciclos erosivos que afetaram a região (NÓBREGA & SEABRA, 1988).

Como testemunhos das fases de aplanamento, estão dispersas sobre os pediplanos as serras úmidas. Essas formas onduladas constituem atualmente importantes destinos turísticos no agreste e sertão, como os brejos de Poção, Taquaritinga, Brejo da Madre de Deus, Belo Jardim e Triunfo (Pernambuco); e Pico do Jabre (1.090m), no Município de Teixeira, na Paraíba. Nesta estrutura, movimentos tectônicos, litologias variadas e processos de erosão diferencial originaram relevos residuais, com superfícies superiores às circundantes. Ações intempéricas atuando sobre os afloramentos rochosos, associados a agentes endógenos, provocaram a formação de feições geológicas e geomorfológicas bizarras, expostas na superfície terrestre, e que constituem recursos turísticos de grande valor.

Com extensão aproximada de 700 quilômetros, prolongando-se desde a cidade do Recife até o município de Arcoverde, e daí estendendo-se até Salgueiro, o Lineamento Pernambuco consiste numa falha transcorrente caracterizada pela movimentação horizontal dos blocos rochosos adjacentes. Ao longo do falhamento desenvolveram-se desníveis topográficos gerando feições geomorfológicas exuberantes, adornando com notável beleza a paisagem sertaneja pernambucana.

Nas escarpas orientais da Borborema o relevo torna-se fortemente ondulado, constituindo serras e vales revestidos de manto vegetal transicional, sendo comum o consórcio de espécies arbóreas da mata atlântica, com arbustos e bromélias da caatinga. Nas vertentes ocidentais da Borborema, extensas áreas deprimidas são encontradas nas superfícies sertanejas pediplanadas, onde despontam relevos residuais, como inselbergues, serrotes e pães-de-açúcar. Um dos grandes exemplos desse cenário no Brasil é representado pela Depressão de Patos, na Paraíba. É importante salientar que feições raras de arcos em rochas graníticas, bastante comuns em rochas sedimentares a exemplo dos arenitos, são encontradas em algumas localidades do sertão nordestino.

As diferenças litológicas contribuem na gênese de diferentes feições geomorfológicas, como as formas piramidais, os dorsos de paquiderme e os morros monoclinais. Diques quatzíticos exumados, mediante processos erosivos que atuam no rebaixamento das rochas adjacentes mais friáveis, evidenciam as cristas, formas residuais que se destacam com grande imponência na paisagem sertaneja. Os boqueirões originam-se a partir do corte aprofundado, através da superimposição dos rios, de imensas lápides rochosas outrora embutidas constituindo os diques intrudidos, e posteriormente exumadas através da erosão diferencial. Essas grandiosas perfurações rochosas muitas vezes são emparedadas com concreto para a construção de barragens e formação dos açudes sertanejos. Os boqueirões constituem monumentos naturais excepcionais de extraordinário potencial turístico, a exemplo do Boqueirão do Juru, na Serra do Teixeira, Estado da Paraíba. As cavernas são atrativos turísticos bastante procurados pelos turistas, sendo uma das principais motivações do ecoturismo na Chapada Diamantina (SEABRA, 1991).

Com extensão de aproximadamente um milhão de quilômetros quadrados e população de 20 milhões de pessoas, o semi-árido nordestino é cercado de características únicas. A distância e o isolamento dos grandes centros urbanos e culturais, as altas temperaturas e precipitações atmosféricas reduzidas dão à paisagem um aspecto de carência total, parecendo que ali, a vida apenas teima em existir.

Muitas vezes o quadro natural assemelha-se ao nada. O clima semi-árido, sempre quente, torna o calor insuportável em determinadas horas do dia. O manto vegetal mais parece um emaranhado de gravetos, espetos e espinhos. As folhas secas caídas pavimentam o chão rachado e pedegroso. Sobressaem-se nas lonjuras do sertão as pedras nuas queimando sob o sol escaldante, constituindo um diferencial na paisagem. Sem nenhum exagero, vive-se ainda hoje nos sertões a idade da pedra lascada. Nos rios nem uma só gota d' água na maior parte do ano. Para obtê-la, somente cavando fundas cacimbas nos leitos secos, que servem ao abastecimento humano e ao consumo dos animais nos períodos de estiagem. Já as noites podem ser muito frias, especialmente quando sopra o vento aracati vindo do litoral do litoral cearense.
De outra parte, as rugosidades encontradas nas superfícies pediplanadas, como os inselbergues, dorsos de paquidermes e morros corcovados, constituem gigantescas bacias de captação das águas pluviais que são armazenadas nos açudes naturais encontrados nas áreas deprimidas ao pé das elevações. Esses reservatórios hídricos são da maior importância tanto para aliviar a sede dos animais como para o consumo humano. Junto a essas represas estão localizados sítios policultores, com mão de obra exclusivamente familiar, destinados à agricultura de subsistência e o criatório de pequenos animais.

Há uma enorme demanda turística demanda pelas serras úmidas do interior. Os visitantes saem em busca de aventura nos parques nacionais e outras áreas protegidas, a fim de percorrer trilhas rústicas e interagir com os grupos tradicionais, numa relação solidária entre comunidades e viajantes (SEABRA, 1998; 2001a).
Planejamento Ambiental e Turismo

Como importante fator de desenvolvimento, diante da economia mundializada, o planejamento do turismo deve adequar-se às escalas de nível local, municipal, regional, nacional e global. Dessa forma, de acordo com MELO & SILVA (2003), impõem-se estratégias de ação num contexto intersetorial das atividades econômicas e sociais.
Via de regra os planos estratégicos e as ações empreendidas pelos órgãos governamentais para o setor turístico visam prioritariamente a reprodução do capital, mantendo à margem do desenvolvimento importantes setores da sociedade, especialmente os pequenos e microempresários e a mão de obra local. Por outro lado, o planejamento turístico, quando estruturado num modelo sistêmico (BENI, 1998) e descentralizado, deve estar associado aos outros setores econômicos, como agricultura, pecuária, pequenas unidades comerciais, artesanato e serviços. Alguns desses projetos estão sendo implantados, com relativo sucesso, no sertão nordestino, envolvendo a paisagem natural, o patrimônio cultural e as comunidades locais, mediante o traçado de roteiros alternativos e integrados (Seabra, 2001b; 2004). Segundo este prisma, deve-se obedecer, basicamente, os seguintes procedimentos:

- Levantamento do potencial turístico regional e local;
- Seleção de áreas;- Estudo da demanda;
- Treinamento e capacitação da mão-de-obra;
- Incentivo ao associativismo e à microempresa;
- Adequação dos equipamentos à paisagem natural e cultural;
- Elaboração dos roteiros;
- Programação de um calendário turístico;
- Marketing e Mix.
O levantamento do potencial turístico compreende o inventário e diagnóstico do local ou zona turística, enfatizando-se os monumentos naturais, os recursos hídricos, o comportamento do clima, o patrimônio cultural e as manifestações folclóricas. O perfil sócio econômico deve ser traçado para o aproveitamento da mão-de-obra e produtos locais.

Realizado o levantamento e o diagnóstico procede-se à seleção de áreas destinadas às visitas, bem como a estimativa da capacidade de carga dos lugares turísticos acompanhados de sugestões para melhorias e implantação de infra-estrutura. Tem-se então a oferta, ou seja, o conjunto de bens e serviços que são oferecidos ao turista por um dado preço e em um dado período de tempo. Definida a oferta dos produtos turísticos pode-se estimar a demanda, expressada pelo número de turistas que chegam a um determinado local para consumir bens e serviços.

A definição dos preços cobrados pelos produtos turísticos é da maior importância e pode definir a sustentabilidade do sistema. A relação entre a quantidade demandada e o preço do produto turístico, denominada curva da demanda, apresenta uma relação inversamente proporcional, pois à medida que os preços aumentam, as pessoas tendem a consumir menos quantidade de bens e serviços e vice-versa (LAGE & MILONE, 2000). O turismo quando devidamente planejado e estruturado favorece o desenvolvimento da economia local e regional.

MARION e FARELL (1998) enfatizam que essa atividade promove uma maior integração entre muitos objetivos conflitantes, como proteção de recursos naturais e culturais, fornecimento de atividades recreativas e geração de benefícios econômicos. Em geral, locais com planejamento desenvolvido cuidadosamente e com a participação da comunidade local alcançam mais sucesso em termos de satisfação por parte dos visitantes, benefícios econômicos e mínimos impactos negativos sobre o local (TIMOTHY, 1998). Assim, quando os residentes participam de todas as fases de planejamento e implantação do projeto turístico, aumenta as possibilidades de melhoria dos seus padrões econômicos, a qualidade de vida, o nível educacional, sem o comprometimento do patrimônio natural e cultural.

No planejamento participativo, cada comunidade deve identificar seus próprios objetivos, desejos e atividades que refletem a realidade vivida. Sem a participação dos residentes nas diversas fases de planejamento e execução do plano turístico, aumentam as chances de prejuízos econômicos potenciais e perda da identidade cultural causados pela imposição dos padrões econômicos globais. Para o planejamento turístico, a fenomenologia auxilia na compreensão do espaço vivido, este de importância preponderante na busca da identidade do lugar e, portanto, de sua vocação turística. Entre outros fatores, a realidade social contém uma dimensão estética, e a Geografia cumpre o papel de compreender o imaginário contido nessa realidade. Essa abordagem geográfica humanística procura demonstrar a importância da compreensão da mente dos homens para saber o modo como se comportam em relação ao espaço (LENCIONI, 1999).

A preocupação do espaço vivido coloca no centro a análise do lugar, isso porque é o lugar, mais do que o espaço, que se relaciona à existência real e à experiência vivida (LENCIONI, op. cit.). Segundo a autora, quando o lugar não se coloca como um conjunto de significados, na maioria das vezes por causa da tecnologia que transforma todos os lugares em espaços homogêneos, em verdadeiros clones paisagísticos, os lugares passam a ser não - lugares. Segundo essa concepção, o treinamento e a capacitação da mão-de-obra devem obedecer o contexto social local, priorizando-se os indivíduos que estão fora do mercado de trabalho e gerando oportunidade de renda para as famílias. Para tanto, é oportuno o respeito aos hábitos culturais, adequando-os e inserindo-os como atividades de entretenimento ao turista.

É de fundamental importância o incentivo ao associativismo para estruturação e oferta de serviços e produtos destinados ao turista, como guias, peças de vestuário, artesanato e culinária regional. Quando organizados em associações, os moradores dinamizam a operacionalidade dos serviços facilitando a comercialização da produção local. Exemplos como esses são observados em Santana do Cariri e Nova Olinda (CE); São Raimundo Nonato e Sete Cidades (PI); Conceição das Creoulas e Ouricuri (PE); Chapada Diamantina (BA), entre outros. A elaboração dos roteiros depende significativamente das etapas acima enumeradas, porque é a partir delas que se obtém o traçado das rotas integradas aos locais turísticos. Os roteiros devem contemplar não somente os atrativos locais, mas também aqueles situados em toda a zona turística a fim de que os benefícios possam ser obtidos por um maior número de indivíduos.

A partir do inventário e diagnóstico é elaborado o calendário de atrativos para a zona turística incluindo-se os locais e produtos turísticos, eventos e festejos municipais. Deve-se atentar para que as festas estejam integradas às demais atividades turísticas, a fim de manter-se um fluxo contínuo de turistas ao longo do ano. Os locais turísticos, os produtos da terra e os bens imateriais presentes no imaginário popular são então transformados em peças publicitárias para divulgação e captação da demanda, obedecendo-se a capacidade de suporte para que não ocasione escassez dos produtos, e a conseqüente elevação dos preços, e nem o estress do turista. Vale salientar, contudo, que qualquer projeto turístico deve considerar os fatores endógenos e exógenos do desenvolvimento, de forma a valorizar a dinâmica sócio-econômica e cultural do lugar, mediante um forte enraizamento local.

Circuitos Integrados

O turismo quando planejado segundo o modelo estrutural sistêmico, cuja sustentação se dá através dos elementos naturais, sócio-econômicos e culturais locais e regionais, tem seus custos de implantação e de manutenção sensivelmente reduzidos. A integração desses elementos insere novos serviços e produtos na economia local, impulsiona a cadeia produtiva e promove a elevação do padrão de vida da comunidade receptora. Os objetivos definidos nos planos turísticos são alcançados quando estruturados sobre bases sustentáveis, visando a inserção social da população como fator primordial para a perenidade dos recursos naturais e culturais de uso turístico.
O conceito de turismo sustentável refere-se a um setor economicamente viável, mas que não exaure os recursos dos quais o turismo no futuro dependerá, principalmente o meio ambiente físico e o tecido social da comunidade local (SWARBROOKE, 2000). Os circuitos turísticos são implantados através da criação de uma rota de ligação entre os municípios que integram uma determinada zona turística, estando situados relativamente próximos entre si. De superfície variável, a zona turística representa uma unidade de análise e de estruturação do universo espacial turístico de um país (BOULLÓN, 2002).

No nosso caso, as zonas turísticas compreendem espaços geográficos no interior do nordeste que apresentam belezas cênicas extraordinárias, evidenciadas nas formações estruturais e formas esculturais do relevo, em cujas proximidades habitam comunidades especiais do ponto de vista cultural tradicional. Essas macrounidades da paisagem podem atingir uma extensão de algumas centenas de quilômetros, permitindo a elas tratamento geossistêmico no planejamento ambiental e turístico. O agrupamento dos municípios turísticos e potencialmente turísticos em zonas reduz os custos do investimento em infraestrutura e serviços. Os circuitos assim concebidos encurtam as distâncias e possibilitam maior mobilidade e entretenimento ao visitante. Aumentando o número de lugares visitados, o turista tem mais oportunidades para conhecer atrativos diversos e vivenciar os hábitos, mitos, ritos e festejos característicos de diferentes comunidades. Pelo fato de inserir-se numa estrutura espacial descentralizadora, os circuitos turísticos contrapõem-se à política de criação de pólos de desenvolvimento.

Os pólos turísticos, ao contrário, concentram a riqueza em alguns pontos e geram miséria no restante da região, enquanto que os circuitos integrados proporcionam o desenvolvimento com distribuição de renda a custos reduzidos. Além dos atrativos turísticos, uma zona turística deve contar, em seu território, com equipamentos e serviços, infraestrutura de estradas, vias de acesso e transportes, relacionando entre si os diversos elementos que compõe o espaço turístico.

A idealização, elaboração e execução de circuitos turísticos, trans e intermunicipais, baseou-se nos princípios da sustentabilidade econômica e cultural das comunidades locais, cujo requisito principal reside no envolvimento direto da população, num processo interativo de construção continuada. Em nível regional, foram selecionadas áreas no interior nordestino, com notáveis atrativos turísticos geológicos e geomorfológicos, como o Pediplano Sertanejo e a Chapada Diamantina (BA); Agreste Pernambucano, Serra do Catimbau, a Pedra do Reino e o Serrote do Urubu (PE); Cariri Paraibano e a Pedra da Boca (PB); Chapada do Araripe (PE, CE); Sertão Central (CE); Serra daCapivara e Sete Cidades (PI).

Considerações Finais

Desde sua estruturação em nível de planejamento, que remonta aos idos de 1960, o turismo no Brasil tem priorizado os investimentos em infraestrutura, equipamentos, serviços e marketing notadamente nos espaços litorâneos. Os planos estratégicos e ações governamentais não alcançaram os objetivos amplamente divulgados nos meios de comunicação, sobretudo no que diz respeito à geração de emprego e benefícios diretos para a população receptora. Além disso, há sérios comprometimentos ambientais advindos dos grandes empreendimentos hoteleiros construídos no litoral, que ocupam e impedem a circulação de pessoas nas áreas que deveriam ser destinadas ao uso público, especialmente as praias. Esses fatos acentuaram-se com as ações empreendidas através do Programa de Desenvolvimento Turístico no Nordeste - Prodetur.

Como essas áreas litorâneas estão sob forte pressão dos empreendimentos turísticos, comprometendo tanto a paisagem natural como o patrimônio natural, propõe-se o domínio dos sertões nordestinos como áreas alternativas para elaboração e implementação de roteiros turísticos, desde que acompanhados de ações políticas efetivas destinadas promover a sustentabilidade ambiental, econômica e cultural das comunidades locais.

As formas exóticas do relevo, encontradas no sertão nordestino, são propostas neste trabalho como o lugar do turismo. Nos espaços contíguos aos monumentos geológicos são encontrados grupos especiais que mantêm acesa a chama da cultura, encontrada nas pequenas cidades, vilas, povoados e propriedades rurais.Além das formações rochosas, constituem espaços para visitação, as pequenas cidades, vilas e povoados sertanejos, onde as feiras livres, os festejos, as comidas típicas e o artesanato podem ser transformados em produtos turísticos, quando devidamente planejados. As feições paisagísticas do sertão nordestino, com características próprias e singulares, são atrativos para o desenvolvimento do turismo exótico e suas modalidades alternativas, tendo como suporte referencial a base social local.

O aproveitamento das capacidades produtivas básicas impulsiona a economia regional, norteando a sustentabilidade regional e evitando a implantação de grandes projetos turísticos, que terminam por monopolizar e capitalizar todos os seus benefícios. As diretrizes e ações do planejamento oficial vinculam-se às regras do modelo econômico concentrador de capital, menosprezando o desenvolvimento regional sustentável. O turismo concebido de maneira a priorizar os elementos naturais, sócio-econômicos e culturais locais e regionais, tem os custos de implantação dos projetos sensivelmente reduzidos. A integração desses fatores insere novos serviços e produtos na economia local, impulsionando a cadeia produtiva e elevando o padrão de vida da comunidade residente.

Referências

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BOULLÓN, R. C. Planejamento do espaço turístico. Bauru: EDUSC, 2002.
CAMINHA, P. V. de. Carta de Pero Vaz de Caminha a El Rei D. Manuel sobre o achamento do Brasil. São Paulo: Martin Claret, 2002.
LAGE, B. H. G. & MILONE, P. C. (Orgs.). Turismo: teoria e prática. São Paulo: Atlas, 2000.
LEITE, M. R. B. Entrevendo oásis e silêncios no discurso da propaganda turística oficial sobre o Nordeste. Tese de Doutorado.
Araraquara: FCL / UNESP, 2004.
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NIMER, E. Clima. In Geografia do Brasil: Região Nordeste (2: 47-84). Rio de Janeiro: FIBGE, 1977.
NÓBREGA, M. A. e SEABRA, G. F. Aspectos Fisiográficos e Fitogeográficos da Bacia do Rio Capibaribe.
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SEABRA, G. F. Estudo Geomorfológico da Região Cárstica de Andaraí: uma contribuição à conservação de cavernas.
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___________. Do Garimpo aos Ecos do Turismo: o Parque Nacional da Chapada Diamantina. Tese de Doutorado. São Paulo: FFLCH / USP, 1998.
___________. Ecos do Turismo: o turismo ecológico em áreas protegidas. Campinas: Papirus, 2001a.
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TIMOTHY, D. J. Cooperative tourism planning in a developing destination. Journal of sustainable tourism. V. 6, n. 1. London, 1998.

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